Onde comi em Buenos Aires: lugares testados por quem foi


Buenos Aires pelo estômago: de uma parrilla que vale cada peso a um dos melhores bares do mundo

Se você está planejando uma viagem e quer saber onde comer em Buenos Aires com base em experiência real, este artigo é o relato do que comi durante cinco dias pela cidade em novembro de 2024

A entrada escondida atrás de uma floricultura

A entrada é a parte que fica na memória. Do lado de fora, a Florería Atlántico parece exatamente o que o nome diz: uma floricultura, numa ruazinha discreta entre o Centro e a Recoleta. De noite, com a loja fechada, até precisei checar o endereço de novo para saber se estava no lugar certo, mas estava certo. Logo percebi uma porta, com um homem conferindo uma lista. Ele checou minha reserva e chamou um outro funcionário para guiar a mim e um casal que estava ali para dentro da floricultura, até um alçapão com uma escadinha, que descemos para encontrar o verdadeiro estabelecimento.

O bar era um salão bem fundo e um pouco estreito. A luz é baixa, estilo speakeasy, e um balcão comprido com uma estante enorme de garrafas atrás, enquanto que à direita, fica uma fileira de mesas. Falando nisso, fiz reserva de mesa antes da viagem, afinal o bar está entre os 50 melhores do mundo há alguns anos, e não custa nada se planejar. Mas descobri depois que dá para ir sem reserva, chegando cedo, correndo o risco de esperar por algum tempo ou ter que se sentar no balcão, o que aliás não seria tão ruim para minha visita, já que estava sozinho.

Meu pedido foram dois drinks da carta temporária, que era também temática sobre grupos imigrantes de Buenos Aires: um de inspiração chinesa, o Fanqie Mitang, servido num pequenino bule de chá de cerâmica, e um homenageando os venezuelanos, o Papelón, com sabores tropicais e uma folha enorme saindo do copo (ambos infelizmente já não estão mais no menu). Como já tinha jantado, só petisquei uma porção de batata-chips, mas o bar trazia algumas opções que pareciam gostosas, incluindo empanadas e carne.

Gastei cerca de 42.900 pesos argentinos, o que em novembro de 2024, era equivalente a algo entre R$ 240 e R$ 250 no câmbio oficial. Mas estamos falando de Argentina, um lugar com inflação galopante e uma das taxas de câmbio mais oscilantes do mundo, então pesquise os valores perto de ir para lá, para ter certeza.

Apesar de não ter ficado no balcão, ir sozinho me permitiu observar o ambiente com calma. Mas confesso que teria preferido ir em dupla ou grupo, para comentar os detalhes da decoração e quem sabe compartilhar alguns drinks diferentes.

Florería Atlantico:

Endereço: Arroyo 872, C1007 Cdad. Autónoma de Buenos Aires, Argentina
Instagram: @floreriaatlantico

Interior da Florería Atlántico com decoração de flores e bar no subsolo em Buenos Aires

Entrada disfarçada de floricultura e bar no subsolo da Florería Atlántico

Buenos Aires não tem uma cozinha só, tem várias convivendo juntas. A base é italiana e espanhola, herança da imigração que formou a cidade, mas cada bairro parece ter desenvolvido um sotaque próprio: parrillas tradicionais dividem espaço com pizzarias que nada lembram a pizza brasileira, empanadas que mudam de recheio a cada esquina e bares de coquetelaria que concorrem de igual para igual com qualquer capital europeia. Foi só andando pela cidade, e comendo bastante, que entendi que não dava pra reduzir tudo isso em uma mera lista de “restaurantes recomendados”.

A pizzaria que nunca apagou o forno

No Centro de Buenos Aires, na hora do almoço, entrei na Pizzeria Guerrín com o espírito de “preciso provar a pizza mais tradicional da cidade”. O estilo porteño (de Buenos Aires) de pizza é bem próprio: a massa é diferente da brasileira, mais grossa e fofinha embaixo, e bem servida de recheio. Eu diria que é mais parecida com uma “pizza de padaria” paulistana do que com a de massa mais fina embaixo, que a gente costuma comer em casa.

Os salões (sim, vários) estavam cheios, mas esperei no máximo dois minutos para sentar, tanto pela grande quantidade de lugares, quanto pela alta rotatividade do lugar no almoço. Como estava sozinho, pedi as pizzas por fatia: uma fugazzeta, tradicional recheio de (muito) queijo com cebola, e uma Super Guerrín, com presunto, queijo, tomate e pimentão, outra combinação bem argentina. Duas fatias foram suficientes, a massa é bem mais substancial do que parece. O preço (10.100 pesos) ficou ok pra mim, embora eu já tenha escutado que a depender do tipo de pedido, a visita na Guerrín pode sair bem cara.

Vale terminar de comer e dar uma volta pelos salões para ver a decoração, com fotos de diversos famosos argentinos que visitaram o lugar. A maioria era desconhecido para um brasileiro, mas tem algumas figurinhas que vale encontrar, por exemplo, eu consegui localizar o então presidente Javier Milei. Outra atração é o lendário forno, que segundo contam nunca foi apagado desde que acenderam, a ponto de um funcionário ir alimentar o fogo diariamente enquanto a pizzaria ficou fechada durante a pandemia de Covid-19.

Pizzería Güerrín

Endereço: Av. Corrientes 1368, C1043 Cdad. Autónoma de Buenos Aires, Argentina
Instagram: @pizzeriaguerrin

Fatias de pizza Fugazzeta e Super Guerrín servidas na Pizzería Guerrín em Buenos Aires
Fachada vermelha da Pizzería Guerrín na Avenida Corrientes em Buenos Aires
Cardápio da Pizzería Guerrín fundada em 1932 em Buenos Aires

Pizzas, fachada e cardápido da pizzaria Guerrín


Buenos Aires é uma cidade bastante tranquila para se viajar de maneira geral, com uma gastronomia de fácil adaptação, ainda mais se compararmos com outras culinárias de temperos mais potentes, como a mexicana. Mas imprevistos sempre acontecem. Por isso, mesmo ficando por somente cinco dias na cidade eu viajei com cobertura de seguro, pelo cartão de crédito. Quando não tinha esse benefício, ainda assim, sempre busquei estar protegido contra incidentes, que podem se tornar muito mais caros e problemáticos fora do país. A Real Seguro Viagem é uma boa opção para cotar e comparar coberturas rapidamente antes de viajar.

A parrilla que só descobri no último dia

Fui parar no Santos Manjares por pura conveniência, no último dia de viagem, literalmente antes de ir ao aeroporto pegar meu voo de volta. Estava novamente no Centro, comprando alfajores nas Galerias Pacífico e vi que era um dos restaurantes que havia pesquisado que ficava nas proximidades. Foi uma delícia de acaso: a relação custo-benefício ali é bem melhor do que a que tive no Juan Bautista, em Puerto Madero, que também é boa parrilla mas cobra pela vista e pela localização nobre.

O Martín, um amigo argentino do trabalho, tinha me dado uma dica no dia anterior que apliquei no Santos: sempre perguntar pelo menu do dia, que costuma sair bem mais em conta que os pratos a la carte do cardápio. Naquele dia o menu do dia trazia entraña, corte argentino com fibras, parecido com a nossa fraldinha (não confundir com “entranha” em português, que remete a vísceras), com ovo frito, um acompanhamento (fui de fritas) e uma bebida. O ambiente é de restaurante tradicional com mesas de madeira, prateleiras cheias de garrafas de vinho pela parede toda.

Fui cedo pro padrão argentino de horários, então encontrei o lugar praticamente vazio e tive um atendimento quase que exclusivo. O menu saiu por 22.500 pesos com bebida, e a conta total, já com taxa de serviço, ficou em 25.000. Recomendo sem pestanejar. Meu único arrependimento foi só ter descoberto essa pérola no último dia, sem tempo para voltar.

Santos Manjares

Endereço: Paraguay 938, C1057 AAN, Cdad. Autónoma de Buenos Aires, Argentina
Instagram: @santosmanjares

Entraña com ovo frito e batatas fritas do menu do dia na parrilla Santos Manjares, um dos melhores lugares onde comer em Buenos Aires

Menu do dia na Santos Manjares

Empanadas perto do silêncio da Recoleta

As empanadas assadas do El Sanjuanino aparecem em praticamente todo guia de Buenos Aires. O local fica perto do Cemitério da Recoleta e acaba sendo uma boa opção para combinar os dois lugares no mesmo passeio, que foi o que eu fiz. A casa não é grande, tem um ar meio antigo, de restaurante que existe há décadas. A massa das empanadas é fininha e se desmancha na primeira mordida: pedi de carne, de frango, queijo roquefort e, claro, uma fugazzeta (recheio que também pode ir em empanada). Comi bastante e bem, sem que fosse uma das refeições mais caras da viagem (14.000 pesos).

Também ficou marcado o garçom, daqueles senhores grisalhos que trabalham no restaurante há décadas e que passava de mesa em mesa puxando conversa: comigo falou de futebol num português bastante bom e ainda proporcionou uma rápida integração com uma dupla de brasileiros que também estava lá. O Sanjuanino funciona tanto para uma refeição completa (também tem pratos a la carte) quanto para só passar e levar umas empanadas para comer no caminho entre um lugar e outro.

El Sanjuanino

Endereço: Posadas 1515, C1112 Cdad. Autónoma de Buenos Aires, Argentina
Instagram:
@elsanjuanino

Empanada de carne aberta mostrando o recheio no El Sanjuanino em Buenos Aires
Empanada de frango do El Sanjuanino em Buenos Aires
Empanada de fugazzeta aberta mostrando queijo e cebola no El Sanjuanino em Buenos Aires
Empanada assada de queijo roquefort aberta do El Sanjuanino em Buenos Aires

Empanadas do Sanjuanino, em sentido horário: carne, fugazzeta, roquefort e frango.

O restaurante que a Netflix já tinha me apresentado

Meu primeiro dia em Buenos Aires foi bastante cansativo: cheguei no aeroporto por volta das 07h da manhã, deixei minhas malas na hospedagem e já saí direto para passear pelo Rosedal de Palermo, Jardim Japonês e visitar o Museu Malba. Terminada a jornada saí do Malba faminto e sem ter pesquisado onde comer. Erro de planejamento que resolvi na hora, procurando opções por perto.

Por sorte, logo de cara vi o Casa Paradiso, num shopping ao lado do museu, o Paseo Alcorta. Reconheci o nome da série Somebody Feed Phil da Netflix, cujo episódio sobre Buenos Aires assisti antes da viagem, exatamente pra levantar ideias do que fazer por lá. Na série, o Casa Paradiso aparece como um restaurante italiano que oscila entre o fino e o descolado. A versão do shopping é diferente: uma praça de alimentação com várias “lojas” de diversas especialidades: massas, carnes, empanadas, pizzas, produtos italianos. Descobri depois, que essa praça é do mesmo dono do restaurante da série, mas um projeto diferente, mais amplo e com propósito de diversificar o público e os produtos servidos.

Pedi uma pizza e minha primeira empanada da viagem, e gostei bastante. Preço intermediário para caro (25.500 pesos), mas uma experiência muito boa, ainda que não seja o que se imagina como tradicional argentino. De quebra, aproveitei pra resolver compras no shopping: precisava de adaptador de tomada e de alguns snacks para comer em casa.

Casa Paradiso (Paseo Alcorta)

Endereço: Jerónimo Salguero 3172, C1425DFP Cdad. Autónoma de Buenos Aires, Argentina
Instagram: @casaparadiso.ar

Pizza e empanada servidas na Casa Paradiso no shopping Paseo Alcorta em Buenos Aires

Empanada e pizza da Casa Paradiso

Naquele momento, saí do Malba sem sinal de internet e sem saber onde comer, e só consegui pesquisar opções por perto graças ao wi-fi do próprio museu, que para ajudar nem era muito bom. Por essas e outras experiências, passei a considerar viajar com um eSIM internacional como o da HOLAFLY (esse link, vem já com 5% de desconto do blog). Assim, consigo ter internet para me localizar enquanto passeio pela cidade e para encontrar restaurantes próximos de onde estou.

Um encontro que não pareceu o primeiro

Eu nem fazia ideia da existência do Cafe La Poesia, embora ele seja bastante famoso. Ele foi uma indicação da Ariana, uma amiga argentina que conheci trabalhando à distância, sem nunca ter encontrado pessoalmente antes dessa viagem. Foram tantos anos trabalhando juntos que, quando finalmente nos encontramos, na porta da casa dela em San Telmo, bem em frente a um grafite do Rei Pelé, pareceu muito mais um encontro de velhos amigos do que duas pessoas se conhecendo naquele exato instante.

A Ariana gosta muito de San Telmo, e me guiou pelo bairro: pontos turísticos, feirinhas de antiguidade, a estátua da Mafalda, o Mercado de San Telmo. Falando nele, achei que seria nosso destino para o almoço, mas a Ari tinha outros planos, o Cafe La Poesia. A ideia foi duplamente boa, primeiro porque o Mercado estava lotado de turistas e o La Poesia bem tranquilo, e em segundo lugar porque a comida era muito boa e bem tradicional porteña. Pedi uma Milanesa a la Napolitana, que é parecida com nosso bife à parmegiana mas com cobertura de presunto além do queijo e menos molho do que a nossa versão. Veio grande, farta, uma delícia.

O La Poesia é um dos “Cinco Notáveis”, título dado a cinco bares e restaurantes pela importância histórica que têm para Buenos Aires. E o ambiente combina: mesas de madeira escura, pôsteres antigos, um ar tradicional que não parece cenografia. O preço também bastante justo para um restaurante de tal distinção: 16.700 pesos. Infelizmente, erraram o pedido da Ariana, que era um ravioli de abóbora com creme branco e veio como ravioli de queijo. Mas o que veio estava bom, então a Ari decidiu ficar com ele mesmo.

Cafe La Poesia

Endereço: Chile 502, C1098AAL Cdad. Autónoma de Buenos Aires, Argentina
Instagram: @bareslosnostables

Milanesa a la Napolitana com batatas fritas servida no Café La Poesia em San Telmo Buenos Aires

Milanesa Napolinata com fritas, no Cafe La Poesia

Mais alguns lugares que valem a menção

Alguns lugares não renderam um parágrafo inteiro, mas também merecem menção e referência: o Juan Bautista, em Puerto Madero, é uma parrilla boa, só que mais cara pela localização e pela vista e brisa da beira do rio. O Santos Manjares compensa melhor o bolso.

O bairro de Palermo tem microcafeterias ótimas. Como fiquei hospedado por lá, a cada dia visitei uma diferente para meu café da manhã. A região concentra muitos restaurantes que valem a pena (incluindo a unidade do Chori que menciono abaixo). Nessa viagem, não usei o Booking pra achar hospedagem, mas é a ferramenta que uso na maioria das vezes, e seria minha primeira opção de busca se fosse escolher onde ficar em Palermo hoje. Pretendo mencionar as microcafeterias uma a uma num próximo artigo, mas a recomendação é ir e entrar em qualquer uma que te apetecer, pois todas que visitei eram muito boas.

A Gelateria Cadore está mencionada entre as dez melhores sorveterias do mundo. Fica no Centro, e a visitei logo após sair da Pizzaria Guerrin, para ter minha sobremesa. É um bom gelato, mas honestamente não muito diferente de boas gelaterias em São Paulo. Por outro lado, tem um preço bastante honesto dado a sua fama internacional, e o sorvete chega a ser mais em conta que em bairros mais caros, como Palermo.

E tem o Chori (@Xchorix no Instagram), uma lanchonete bem descolada e focada em choripán, típico sanduíche argentino de linguiça. O cardápio apresenta várias opções do sanduba, e o local tem uma decoração estilosa, com cores vivas, e com temática de linguiça, inclusive com algumas in natura expostas no balcão de vidro, como se fosse um açougue.

Sobre dinheiro e preços

Embora não seja o foco do artigo, dinheiro e conversão é sempre um tema recorrente em viagens para a Argentina, então deixo o relato de como lidei com isso. O cartão da Wise foi a minha principal opção para levar moeda estrangeira e funcionou muito bem, já que todos os lugares visitados aceitaram o cartão e o câmbio que consegui foi bastante bom. Também acabei usando a Western Union para uma situação específica em que precisei de uma quantidade de dinheiro em espécie (pagar um ingresso de futebol para meu amigo Martín), e também foi um processo tranquilo, com boa taxa de conversão e sem dificuldades para sacar o dinheiro.

Ao longo do artigo, coloquei os gastos que tive nos locais que visitei para deixar como referência. Porém, a Argentina é um país com moeda muito instável, tanto em termos de inflação quanto em taxa de conversão cambial. Por isso, sempre pesquise os preços antes de viajar para lá, para evitar surpresas de última hora.

Onde comer em Buenos Aires?

Se tem uma coisa que Buenos Aires ensina é que dá pra comer bem de diversas maneiras e com diversos orçamentos: de um subsolo escondido atrás de uma floricultura, a uma pizzaria que nunca apagou o forno. Mesmo com tantos lugares visitados, ainda há muitos que ficaram para a próxima visita: o famoso Don Julio, pelo menos quatro “notáveis”, mais dois bares na lista dos 50 melhores do mundo, a parrilla preferida do Messi… melhor parar por aqui, porque já estou ficando com fome de novo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima